sábado, 28 de outubro de 2017

O SEU “PREQUITO”





Não sei quem pusera ou o porquê desse apelido nesse Senhor o qual vos falo, mas vou apenas relatar o caso como eu vi e ouvi com esses olhos e ouvidos que a terra há de comer. Chega ser curioso como esses fatos sempre ocorrem em vilarejos e povoados que sequer alguém já ouviu falar o nome, se existe? Ah! Sim amigos, existe que é para o caro leitor não duvidar da procedência do fato. Em um certo povoado de nome desconhecido à beça, provavelmente você que está lendo isso dificilmente já ouviu falar, me corrija se eu estiver errado; Fazenda Paranaguá, extremo sul da Bahia, pois bem, foi lá que conheci o lendário Senhor Prequito. Homem da terceira idade, bem vivido nessas andanças da vida por aí afora, como ele mesmo se gaba em dizer pitando seu cigarrinho de palha e com seu facão na cintura e um chapéu na cabeça, sentado em seu terreiro ao pôr-do-sol. Como a casa do Senhor Prequito fica à beira da estradinha de terra; pessoas passavam de hora em hora, uns de moto, outros de bicicleta e alguns a pé e todos cumprimentavam o senhor “Prequito” dizendo: “Boa tarde Seu Prequito!” Daí há pouco outro: “Como vai seu Prequito?” E assim o seu Prequito acenava para todos que passavam.

Quando perguntado de onde veio esse apelido, sorriu com um riso amarelo devido ao hábito crônico do uso do tabaco, olhou para mim com os olhos fundos e miúdos em seu rosto magro e enrugado como uma maçã murcha e disse entusiasmado:
- Faz um bando de tempo meu fi, foi lá pras bandas onde morava quando era jovem, caçava muito no mato e vivia fazendo armadilha pra pegar “prequito” pra vender, naquele tempo tinha muita fartura de “prequito” hoje não se ver mais, até isso acabou, mas antigamente no mato, onde quer que vosmicê oiasse tinha um bando deles sentado no gaio de árvore, que vosmicê não sabia o que era foia e o que era “prequito”.
Depois de ouvi com toda atenção que a narrativa requeria, resolvi tirar uma dúvida que me surgiu na mente e perguntei:

- O Senhor quer dizer que capturava aves chamada Periquito e vendia quando jovem, não é mesmo? Ele confirmou dizendo:
- Isso mermo, antigamente muita gente comprava pra criar em casa. - disse com um orgulho estampado em seu rosto chupado, e continuou: - Chegava a vender vinte “prequito” por dia, era o maior pegador de “prequito” da região, quase que enriquei, todo mundo me conhecia, era conhecido como o “homem do prequito” meu fi.

O velho contava o causo e dava risada, chegava chorar de tanto ri, eu acabava rindo também mais por ver o velho rindo do que pela história que ele estava me contando.  Como já estava anoitecendo cumprimentei o velho e fui para casa imaginado o que ele acabara de me contar, só então fui saber que o velho tinha a língua presa e não conseguia dizer o nome correto da ave. No dia seguinte voltei à casa do velho e como já estava com um certo grau de intimidade, resolvi perguntar assim como quem não quer nada:

- Seu Prequito, o senhor nunca passou algum apuro por causa desse nome não, é que seu nome é meio engraçado, já houve algum caso? Falei até meio sem jeito. Mas o velho parecia até já saber que eu iria fazer essa pergunta, deu uma pequena gargalhada, pigarreou umas duas vezes e me falou:

- Não sei porque mas todo mundo me indaga isso, sim meu fi já, teve uma vez que fiquei duente no hospitar, e como sou bem conhecido e considerado por todo mundo aqui da região, pois então, recebia muitas visitas de amigos, parentes de todo lugar. Quem não gostou nada do meu apelido foi a mocinha da recepção do hospitar onde fiquei, toda hora chegava um amigo, um parente e perguntava assim para a mocinha sentada.

Não se aguentando de tanto ri, o velho tossia, dava um trago no cigarro e dizia:

- Chegava um parente e perguntava assim; “Posso ver o Seu Prequito?” Vinha outro conhecido e perguntava de novo pra coitada da moça que era branca e ficava vermelha como um pimentão; “Me leva para ver o Seu Prequito?” Quando não era com a mocinha da recepção era com a médica e as enfermeiras; “O que o Seu Prequito tem?  “Seu Prequito tá bom?”  “Vim aqui ver Seu Prequito” E a história se repetia com a troca de turno e o que mais se ouviu falar enquanto eu estava lá foi o meu nome, fiquei conhecido por todos do hospitar como o Seu Prequito.
Falou e  olhou para mim, se derretendo em gargalhadas.

Autor: Jostly



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