terça-feira, 19 de maio de 2015

O MENINO DO TREM


Pegar metrô na capital paulistana é uma loucura, é um corre-corre para lá e para cá, filas enormes para passar as catracas, aliás, quem dera se as filas fossem apenas para passar as ditas roletas, aqui se pega filas para fazer tudo que se possa imaginar, a gente tem até aquela sensação de estar pegando fila para pegar fila! É um pisando no pé do outro, empurra-empurra para todo lado, eu mesmo sofro muito com isso, não que eu seja muito pequeno, se bem que não sou lá essas coisas no quesito altura, mas isso não vem ao caso. Acho que é devido meu gosto pelo calçado, prefiro usar sapatênis para obter os benefícios da ventilação e a praticidade em calçá-lo. Passo as catracas e meu dilema começa entre aquela calorosa multidão. 


É tanta gente que não se consegue andar com os passos normais, tem que reduzir o tamanho das passadas e andar feito presidiário acorrentado para não fugir da prisão. E assim lá vou eu no meio das inúmeras pessoas em pleno horário de pico da capital paulista, bem no coração de São Paulo. As pessoas ficam tão aglomeradas que mal conseguem andar. Imagine uma procissão de pinguins na Antártida, conseguiu visualizar? É exatamente esse o cenário, só que os pinguins não usam sapatos, sorte deles, azar para nós que temos que usá-los, só sei que é um pisando no calcanhar do outro tirando sapatos e falando blasfêmias que não acaba mais. Diante disso, me concentro e sigo firme como uma rocha pensando positivo: "Hoje não vão pisar no meu calcanhar, não vão tirar meu sapato". 


E olhando para o chão para não pisar no pé de quem está à minha frente, para não ser massacrado por palavrões. Foi-se um minuto, três, cinco e por incrível que pareça ainda ninguém pisou. Penso: ‘Não acredito que hoje vai passar em branco! ’. Passaram-se cinco minutos, estou quase chegando à estação de transferência para a linha amarela do metrô e ainda ninguém tirou o meu sapatênis! ‘Falo comigo mesmo: ‘Hoje estou com sorte!’ Porque a probabilidade de você sair ileso de um “bando de pinguins humanos” se me permitem o termo é a mesma de ganhar na mega-sena!

Todavia, para a minha surpresa, alguém vindo do sentido contrário ao fluxo, esbarra justamente na pessoa que está a minha frente, parando abruptamente, fazendo com que quem está vindo atrás de mim pisar no meu calcanhar e bingo! Tira meu calçado. Olho para trás verde de raiva quase me transformando no Hulk. Ouço um: Desculpe! Digo para mim mesmo: “Tudo bem fazer o quê? Já estou acostumado mesmo, vai ver tem a ‘pata’ muito grande e não tem o controle da própria”. 

Já com os ânimos mais calmos, faço a segunda transferência, agora é um trem transbordando pessoas, com muita dificuldade consegui entrar nele. Perto de mim, está uma senhora baixinha rechonchuda com um moleque mirrado, suspeitei que fosse seu filho porque ela tentava protegê-lo da ‘cavalaria’ indomável, aparentava ter seus seis anos. O trem começa a andar e percebo que o menino está incomodado com alguma coisa, porque fica olhando para todos os lados e sem entender nada no meio de toda aquela gente que não lhe dava espaço nem para ver a janela do trem, fica meio inquieto, a mãe ao perceber fala num tom um tanto enérgico:


- Fica quieto menino, senão você vai cair!  O trem estava tão lotado que disse para mim mesmo rindo baixo: - Cair para onde, ela esqueceu de que aqui a lei da gravidade não existe! A criança olhou para sua mãe com uma vontade tão grande de satisfazer a sua curiosidade que não se conteve em perguntar: - Mãe, a gente tá indo pra lá ou pra cá? Falou apontando para as duas direções. Não me contive e ri olhando para a miniatura humana e disse apontando para o sentido correto: - A gente está indo para lá! Ele não disse mais nada, percebi que ficou satisfeito em saber.

Passado algum tempo, o trem chegou numa estação onde muitas pessoas desembarcaram ficando mais aliviado.  Ele agora já conseguia até ver o que tinha lá fora pela janela do trem. Foi aí que veio minha crise de risos, de repente um toque eletrônico ecoou quebrando o silêncio para anunciar mensagens rotineiras da companhia ferroviária e aquela voz sexy feminina disse: “Senhores usuários, evitem acidentes, não sentem no piso do trem”. Como se os acidentes acontecessem simplesmente pelo fato de se sentar no piso do trem! Ouviu aquela mensagem atento e acho que ficou se perguntado:

- Por que acontece acidente se sentar no piso do trem? Contudo, achou melhor permanecer com a dúvida já que ainda há pouco já havia feito uma pergunta, ficou com vergonha! Não demorou muito e as pessoas olharam na mesma direção através do vidro para uma avenida paralela à linha ferroviária e uma delas comentou: “Nossa senhora, que horrível! Gente do céu que horror! ” Um acidente entre um motoqueiro e um carro de passeio tinha acabado de acontecer, entretanto, não foi tão desesperador como a moça que estava perto de mim havia dito, tinha sangue sim no chão, porém, a vítima estava consciente. Provavelmente era uma dessas moças hematofóbicas que exageram na dose, pensei comigo.  

O garotinho assustado coitado, acompanhava tudo, já que a cena prendeu à atenção da sua mãe que nem sequer lembrou-se de impedir que o filho olhasse. Passou-se a cena, ouvia-se apenas comentários dos peritos amadores. Qual não foi minha surpresa, o vi meio incrédulo se virar e perguntar para sua mãe com aquela inocência peculiar de toda criança de sua idade: - Mãe, por que aconteceu aquele acidente? Sua mãe respondeu-lhe: - Não sei meu filho, vai ver foram esses motoqueiros apressados, mal-educados no trânsito querendo chegar mais rápido que todo mundo! Via-se nitidamente que ele ainda estava inconformado.Falou novamente: - Mas, mãe a voz não falou que acidente só acontece se sentar no piso do trem, não vi ninguém sentado e aconteceu, por quê? Não me contive e acho que todos que ouviram também não, eu ri até a barriga doer, até hoje quando me lembro disto ainda rio.
Autor: Jostly


sábado, 2 de maio de 2015

ANJO

"Quando vires um anjo com apenas uma asa, lembre-se, esse 
anjo sou eu, e você minha asa faltante."
 Autor: jostly

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