domingo, 1 de dezembro de 2013

MOTORISTA DE TRANSPORTE PÚBLICO



 Mais um dia começa em São Paulo, sair cedo de casa para ir trabalhar não é tarefa fácil porque só de imaginar o que nos aguarda no caminho é desanimador, é tão ruim deixar a nossa aconchegante caminha quente! Ô coisa boa é estar debaixo do cobertor quentinho sem ter que se preocupar com nada, falando assim dá até sono, não é mesmo? Que maravilha! Bora acordar para a vida rapaz, está pensando o quê? Tem que ir trabalhar! Desculpe ter te assustado. Eu dizia, a começar pelo mau tempo, trânsito já faz parte desse cardápio tão indigesto. É certeza que vamos ter dor de barriga com ele. 

Até aí digamos está regular. Péssimo mesmo é quando se associa tudo de uma só vez, como se os deuses estivessem irados conosco, querendo que a gente pague os nossos pecados em um só dia, aí é de lascar com a vida do pobre infeliz. Sabe aquele dia que você já sai sob um dilúvio, chega ao ponto de ônibus e o maldito demora uma eternidade para passar e quando vem está tão abarrotado que você não consegue entrar, tem que esperar o próximo e quando consegue pegar, além de ir em pé, você mal consegue se segurar, passa horas na mesma posição incômoda devido ao trânsito que não flui e fica tudo parado! Aí já viu né? Começa a doer seus braços, seus pés você já nem sentem mais. Que situação! Fala a verdade.

 Bom, se você pensou que passar por isso tudo é algo tão terrível que chega a ser o limite do estresse para um ser humano, pensou errado meu amigo, pior que isso é só vida de motorista de transporte público, ô injustiça que fazem com os coitados, além de estar passando pelos mesmos problemas que a gente, ainda ouvem cada desaforo! Eles só têm uma pequena diferença em comparação com o nosso padecer, a gente sofre em pé enquanto que eles sofrem sentados. Em meio aquele povo todo que ele carrega, tem sempre alguém descontente com a língua afiadíssima para criticar o modo de trabalhar do condutor de "sardinhas enlatadas". 

O perfil na maioria das vezes é sempre o mesmo, uma senhora rabugenta e que já entrou na menopausa e que já não desfruta mais dos prazeres da carne para aliviar o mau humor. Se o motorista quer adiantar a viagem quando é possível porque raramente o trânsito o deixa fazer, ouve-se ao fundo aquela voz enfurecida reclamar: 
- Motorista seu filho de uma égua, tu não tá levando sua mãe aqui dentro não viu, aquela vadia. Ele aguenta firme e finge que não escutou. Logo à frente, uma curva mais acentuada, ele reduz a velocidade e tenta ser o mais suave possível. Ouvi novamente uma voz feminina lá do fundo do ônibus dizer: 
- Ô seu corno, tu não tá levando boi aqui não, viu!. O motorista respira fundo, conta até dez e continua calado, porém, já com o sangue subindo-lhe a cabeça.
 Pensa consigo mesmo: “Vou reduzir, se essa filha da puta me xingar de novo, dizendo que estou muito lento, Ah! aí ela vai ver só o que eu vou fazer”

Como ele havia pensado assim o fez. De 50 km por hora diminui pra 30 km. Foi indo e ninguém mais falava nada, problema resolvido e ponto final, pensou ele até meio aliviado das ofensas digeridas com dificuldade. Os semáforos sempre fechavam e o impedia de seguir viagem, tinha que parar aqui e ali, o tempo parecia passar depressa demais e a viagem acaba ficando um pouco demorada devido as constantes pausas. Ainda estava com aquela fala zumbindo nos seus ouvidos bem lá no tímpano, reconheceria aquela maldita voz facilmente caso a ouvisse de novo. Eis que, não demorou muito, ele começou a ouvir murmúrios.

 Foi aumentando e um grito masculino ecoou: 
- Anda motorista, pé de chumbo! ”. Agora o som parecia vim do meio do ônibus e os comentários ofensivos não cessavam, até parece que um motiva o outro a dizer tais blasfêmias. Outro grito ecoou: “Bora lerdo, anda moleza! ” E aquilo ia enchendo-lhe de tal maneira, que já estava suando frio de tanta raiva e começando a pensar em desgraça, falava para si mesmo: “vou bater essa porra no poste e matar todo mundo! ”. E nada parecia irritá-lo tanto do que os risos extravagantes das pessoas. Pensou um pouco e conclui: “não vou fazer isso, porque tenho minha filha pra criar”.

Logo o pensamento ruim afugentou-se dele, assim que o cérebro refletiu a imagem de sua filha. Ufa! Ainda bem que isso só ficou no pensamento, que susto! Quando já estava certo de virar-se e devolver os xingos que havia recebido, porque já estava aponto de explodir, ouviu aquela voz fina de mulher que para ele era inconfundível dizer mais uma vez: 
- Anda sua tartaruga paralítica! . Foi a gota d’água, não se conteve de tanta fúria, puxou o freio de mão, abriu a porta e antes de sair do veículo esbravejou em alto e bom tom: 
- Chega! Pra mim já deu seus desgraçados, agora vão a pé e tomara que todos vocês percam o emprego! Vocês não me mandaram andar, vou andar tchau, fui!”. Falou e desceu bravo virado no jiraia, só voltou para pegar o ônibus quando estava vazio. Ruim com ele pior sem ele!
 Autor: Jostly

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